De ferramenta experimental a infraestrutura crítica: como a inteligência artificial está reconfigurando o trabalho, as relações e a sociedade em 2026

Foto por Pavel Danilyuk em <a href="https://www.pexels.com/pt-br/foto/tecnologia-pesquisa-estudo-dispositivo-8439082/" rel="nofollow">Pexels.com</a>

Com mercado previsto para ultrapassar US$ 300 bilhões em 2026, a inteligência artificial deixou de ser uma curiosidade tecnológica para se tornar parte central da economia, das relações humanas, do mercado de trabalho e das decisões cotidianas de milhões de pessoas ao redor do mundo

Este artigo foi produzido com base em publicações de múltiplas fontes verificadas, entre elas o MBA em Inteligência Artificial e Big Data do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP (REZENDE, Solange Oliveira. Tendências em IA para 2026: da infraestrutura crítica à maturidade tecnológica em uma ‘era invisível’. MBA em IA e Big Data ICMC/USP, São Carlos, dez. 2025), além de dados do Jornal da USP, da Fast Company Brasil e do Senac.


A virada de chave: da experimentação à infraestrutura

Depois de um ciclo marcado pela explosão das ferramentas generativas, a inteligência artificial entra em 2026 em uma nova fase, com especialistas do setor e grandes empresas de tecnologia apontando que ela deixa de ser experimental para se consolidar como infraestrutura crítica de negócios, com impactos profundos na economia, no mercado de trabalho e na sociedade.

Essa mudança não é apenas tecnológica — ela é estrutural, e seus efeitos já se fazem sentir de maneiras concretas na vida cotidiana de trabalhadores, estudantes, pacientes, consumidores e cidadãos comuns, muito antes que a maior parte da população tenha conseguido compreender plenamente o que está em curso.

Um estudo da empresa de pesquisa de mercado e consultoria IDC (International Data Corporation) aponta que o mercado de inteligência artificial deve ultrapassar US$ 300 bilhões em 2026, impulsionado principalmente pela disseminação dos agentes autônomos, pela personalização de modelos e pela crescente necessidade de governança, segurança e eficiência energética.

Para se ter uma dimensão da velocidade desse processo, no início de 2025, o ChatGPT já somava entre 300 e 400 milhões de usuários semanais, e em outubro daquele mesmo ano esse número havia dobrado, acompanhando o crescimento acelerado de outras ferramentas como Gemini e Perplexity. Mindtek


O Brasil no centro da transformação

O Brasil não é espectador passivo nesse processo. Segundo a OpenAI, os brasileiros enviaram cerca de 140 milhões de mensagens por dia ao ChatGPT, o que colocou o país como o terceiro maior usuário da ferramenta no mundo, atrás apenas de Estados Unidos e Índia.

Esse dado revela que a adoção massiva da IA generativa já é uma realidade nacional, com impactos que atravessam todos os setores da economia e da sociedade, do grande centro urbano ao interior do país, da empresa multinacional ao profissional autônomo que usa a ferramenta para redigir textos, tirar dúvidas ou organizar tarefas diárias.

Um dos principais desafios que a IA impõe é o descompasso considerável entre o avanço tecnológico e a capacidade da sociedade de avaliar novas tecnologias, entender seus impactos e promover ações em sintonia com as necessidades coletivas — enquanto uma tecnologia como o ChatGPT alcançou 1 milhão de usuários espalhados pelo mundo em apenas uma semana, a sociedade não consegue lidar com as suas consequências em tempo hábil.

Esse intervalo entre adoção e reflexão é, segundo especialistas, um dos maiores riscos do atual momento.


O mercado de trabalho diante da automação

O impacto da inteligência artificial sobre o emprego é, talvez, o aspecto social mais debatido e mais carregado de incerteza no cenário atual.

Ainda que o temor principal tenha recaído sobre a possibilidade de um desemprego em massa, as implicações da IA não se restringem a este único impacto, indo mais além e promovendo mudanças culturais, médicas, jurídicas, sociais, nas comunicações, no ambiente empresarial, na organização do trabalho e levando à necessidade de novos requisitos de educação e treinamento para o novo perfil requerido dos trabalhadores.

A IA tem a capacidade de realizar tarefas rotineiras e não rotineiras, de modo que ela traz a possibilidade de substituir trabalhos realizados exclusivamente por profissionais de alta qualificação, sendo este o aspecto que diferencia essas tecnologias dos outros processos de automação observados anteriormente.

Um relatório da Challenger, Gray & Christmas, citado pela Universidade Federal do ABC (UFABC), apontou que o uso de IA por empresas nos Estados Unidos resultou na perda de empregos para cerca de 3,9 mil funcionários em maio, colocando a inteligência artificial como a sétima razão mais citada pelos empregadores para demissões, com preocupações crescentes sobre seu potencial de afetar até 300 milhões de postos de trabalho.


Agentes autônomos e a nova fase dos sistemas multiagentes

Após o avanço dos copilotos em 2024 e da automação ampliada em 2025, 2026 deve marcar a disseminação dos sistemas multiagentes, capazes de executar tarefas de ponta a ponta, interagir com ferramentas, tomar decisões com base em regras e revisar a própria performance.

Na prática, esses agentes devem transformar áreas como atendimento ao cliente, logística, auditoria, compliance, análise de dados e desenvolvimento de software, reorganizando fluxos operacionais e liberando profissionais para atividades mais estratégicas.

A professora Solange Oliveira Rezende, coordenadora do MBA em Inteligência Artificial e Big Data do ICMC da USP, em São Carlos, resume com precisão o momento atual: “Não estamos mais falando de experimentação ou curiosidade tecnológica. A IA passa a ser integrada aos processos centrais das organizações.”

Para ela, uma das tendências mais visíveis para 2026 é a consolidação dos prompts como uma nova forma de linguagem de programação, com as pessoas passando a investir cada vez mais em construção de prompts que façam exatamente o que deve ser feito.


Dependência emocional e os riscos para as relações humanas

Além do campo econômico e profissional, a inteligência artificial vem produzindo transformações profundas no plano das relações humanas e da saúde mental, um aspecto que ainda recebe menos atenção do debate público, mas que já preocupa especialistas em comportamento e psicologia social.

Na contemporaneidade, diversas pessoas buscam afeto e apoio em máquinas tecnológicas, o que gera grande dependência desses meios — cidadãos que se sentem sozinhos podem buscar interagir com tais tecnologias, substituindo interações reais por artificiais e favorecendo o isolamento social.

Esse fenômeno, que até pouco tempo atrás parecia restrito ao campo da ficção científica, tornou-se uma preocupação concreta dos pesquisadores diante da proliferação de assistentes virtuais cada vez mais sofisticados e capazes de simular vínculos afetivos de forma convincente, especialmente para indivíduos em situação de vulnerabilidade emocional.


Governança, regulação e o papel do Estado

Há um consenso entre especialistas de que existem três frentes para combater os efeitos adversos trazidos pela IA: a atuação do Estado por meio da adoção de políticas públicas, o fortalecimento das organizações sindicais por meio de acordos coletivos, e o engajamento da sociedade por meio de um amplo diálogo envolvendo os principais atores sociais afetados pelo avanço da tecnologia.

No Brasil, a Lei de Estratégia Brasileira de Inteligência Artificial, de 2021, representa uma tentativa inicial de estabelecer diretrizes nacionais para o uso ético das ferramentas de IA, mas especialistas apontam que sua fiscalização ainda é insuficiente diante da velocidade de adoção da tecnologia.

A aplicação da IA em áreas sensíveis da vida, como saúde, segurança e finanças, representa outro desafio central — em alguns casos, a IA recebe certas responsabilidades que precisariam de intervenção humana, e um erro no processo pode trazer consequências indesejadas, sendo atribuído a um sistema que não tem como responder por seus atos nem oferecer transparência suficiente para o entendimento de sua decisão.

Para a professora Solange Rezende, o futuro da inteligência artificial será definido, sobretudo, pelas escolhas humanas — pela forma como a tecnologia é projetada, governada e utilizada para gerar impacto positivo na sociedade.

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