A Engrenagem da Desigualdade: Do Patriarcado ao Machismo Estrutural

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Para compreender por que projetos como o Futuro Delas são urgentes, é preciso dar nome aos fenômenos que moldam a nossa sociedade. Muitas vezes, o debate público se perde em termos superficiais, mas aqui vamos aprofundar na raiz do problema: como a estrutura foi montada e por que ela ainda dita as regras do jogo.

O Nascimento do Patriarcado

O patriarcado não é um “estado natural” da humanidade, mas um sistema social e histórico. Ele se consolidou quando a organização das sociedades passou a centrar o poder, a herança e o controle dos recursos na figura masculina. Historicamente, o patriarcado estabeleceu que o homem é o provedor e o detentor da esfera pública (política, trabalho, ciência), enquanto a mulher deveria ficar restrita à esfera privada (cuidado, reprodução e silêncio).

Esse sistema criou uma hierarquia onde o “masculino” é a norma e o “feminino” é o subalterno. O patriarcado não prejudica apenas as mulheres; ele impõe aos homens uma masculinidade rígida, mas, em termos de poder e direitos, ele garante aos homens o controle sobre o corpo, a mão de obra e a vida das mulheres.

O Machismo Estrutural: A Herança Invisível

O machismo não se resume a um insulto ou a uma atitude isolada de um indivíduo “ruim”. Ele é estrutural. Isso significa que ele está entranhado nas instituições, nas leis, na linguagem e até na forma como as cidades são planejadas.

É machismo estrutural quando uma mulher com a mesma graduação que um homem ganha menos. É machismo estrutural quando a “jornada dupla” (trabalho fora + trabalho doméstico) é vista como uma obrigação natural da mulher. Como discutido no relatório do projeto O Futuro Delas, essa estrutura mantém as mulheres em ciclos de dependência econômica. O machismo é a ferramenta prática de manutenção do patriarcado: ele serve para manter cada um em seu “devido lugar” através da pressão social, da violência simbólica e, tragicamente, da violência física.

Por que a Misandria não existe na prática?

Sempre que o feminismo avança, surge o termo “misandria” (o suposto ódio ou aversão aos homens) como uma tentativa de criar uma falsa simetria com o machismo. No entanto, para que a misandria existisse como um fenômeno real e comparável, ela precisaria de algo que ela não tem: estrutura de poder.

O machismo mata, estupra, nega salários e exclui mulheres da história há milênios, com o respaldo de leis e costumes. Não existe um sistema histórico que tenha escravizado homens, negado a eles o direito ao voto ou ao estudo, ou que tenha criado uma cultura onde o assassinato de homens por mulheres fosse justificado pela “honra”.

Para a misandria existir na prática, ela teria que competir com o próprio patriarcado e ter anos de violência e subjulgação, porque o que alguns chamam de misandria é, muitas vezes, apenas a reação das mulheres à opressão ou o medo legítimo de um sistema que as violenta por gerações.

O machismo é uma opressão sistêmica; a “misandria” é um conceito abstrato sem impacto real na estrutura de direitos dos homens. O homem nunca foi oprimido por ser homem; a mulher é oprimida pelo simples fato de ser mulher.

A Ruptura Necessária

Romper com essa herança exige mais do que boas intenções, ela exige educação política e consciência de classe e projetos que capacitam mulheres e as devolvam ao mercado de trabalho com autonomia são ataques diretos à base do patriarcado.

Quando uma mulher conquista sua independência financeira, ela quebra a engrenagem do machismo estrutural que a queria dependente eterna e subjulgada. O conhecimento é, portanto, o único caminho para desconstruir um sistema milenar.

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