Investigação revela que criminosos abordam comissários de bordo pelo TikTok e Facebook, oferecendo milhares de dólares para transportar heroína e outras drogas em voos internacionais
Organizações internacionais de tráfico de drogas estão utilizando redes sociais como TikTok e Facebook para recrutar comissários de bordo e outros funcionários de companhias aéreas na Tailândia para atuar como “mulas” do tráfico internacional. A estratégia foi revelada em uma investigação da Reuters e acendeu um alerta entre autoridades tailandesas e agências de segurança de diversos países.
O caso ganhou repercussão após a prisão de uma comissária de bordo da Thai Airways na Austrália, acusada de tentar entrar no país transportando mais de 1 quilograma de heroína escondida em bolsas de tecido. O episódio levou o governo tailandês a reconhecer que redes criminosas passaram a mirar profissionais da aviação comercial, considerados alvos estratégicos para o transporte internacional de drogas.
Como funciona o recrutamento
Segundo a investigação, o contato costuma acontecer de forma inesperada.
No dia 18 de junho, uma comissária de bordo de uma companhia aérea de baixo custo recebeu uma mensagem de um perfil desconhecido no TikTok perguntando:
- “Você voa para a Austrália?”
- “Faz transporte mediante pagamento?”
- “Quanto você cobra?”
A funcionária ignorou a conversa, mas dias depois descobriu que outra comissária havia sido presa justamente por aceitar uma proposta semelhante.
As autoridades afirmam que criminosos utilizam perfis falsos para localizar profissionais da aviação que frequentemente viajam para destinos internacionais considerados lucrativos para o tráfico.
Por que os tripulantes são alvo
Investigadores explicam que membros da tripulação despertam menos suspeitas durante inspeções em aeroportos.
Além disso, possuem acesso frequente a voos internacionais e transportam bagagens de trabalho, fatores que podem facilitar tentativas de ocultação de drogas.
Segundo especialistas consultados pela Reuters, as quadrilhas enxergam nesses profissionais uma oportunidade de reduzir riscos em comparação com o uso de passageiros comuns. A investigação ganhou força após uma comissária da Thai Airways ser presa no aeroporto de Sydney.
As autoridades australianas afirmam que ela transportava mais de um quilo de heroína, escondida em 12 bolsas de tecido.
Durante o interrogatório, a mulher declarou que havia aceitado transportar a droga após ser recrutada pelas redes sociais e receber a promessa de pagamento equivalente a cerca de 8.800 baht (moeda tailandesa).
A companhia aérea informou que abriu uma investigação disciplinar e afirmou que colaborará integralmente com as autoridades australianas.

Ligação com o Mianmar
Segundo o Escritório de Controle de Narcóticos da Tailândia (ONCB), grande parte da heroína apreendida tem origem em regiões produtoras localizadas em Mianmar, especialmente próximas ao chamado Triângulo Dourado, uma das principais áreas produtoras de drogas da Ásia.
Os investigadores afirmam que os entorpecentes entram na Tailândia escondidos em cargas ou objetos de uso cotidiano antes de serem enviados para países como Austrália, Taiwan e outras nações da região Ásia-Pacífico.
Perfis falsos nas redes sociais
A investigação identificou que os traficantes utilizam contas falsas para abordar possíveis recrutados.
Um dos perfis citados pelas autoridades utilizava o nome “Powder is Powder”, posteriormente desativado.
Os investigadores acreditam que diversos outros perfis semelhantes continuam ativos em plataformas digitais, mudando frequentemente de nome para dificultar o rastreamento.
Governo promete endurecer fiscalização
O primeiro-ministro da Tailândia afirmou que o problema passou a representar uma ameaça à imagem internacional do país.
Segundo ele, somente no primeiro semestre de 2026 foram registrados ao menos seis casos envolvendo viajantes provenientes da Tailândia acusados de tráfico internacional de drogas.
Em resposta, o governo anunciou uma série de medidas, entre elas:
- inspeções mais rigorosas das bagagens de tripulantes;
- aumento da fiscalização em aeroportos;
- cooperação com autoridades estrangeiras;
- investigações internas nas companhias aéreas;
- punições disciplinares para funcionários envolvidos com o tráfico.
Cooperação internacional
As investigações são conduzidas de forma conjunta por autoridades da Tailândia, Austrália e Taiwan.
Até o momento, os investigadores informaram a apreensão de 24,38 quilos de heroína em diferentes operações relacionadas ao esquema, além da prisão de pelo menos dois suspeitos ligados às redes internacionais de tráfico.
As autoridades não descartam que existam outros integrantes do setor aéreo envolvidos no esquema e afirmam que novas prisões poderão ocorrer à medida que a análise de celulares, redes sociais e registros de viagens avance.
Investigação continua
O Escritório de Controle de Narcóticos da Tailândia acredita que o uso das redes sociais para recrutar “mulas” representa uma mudança significativa na atuação das organizações criminosas.
Em vez de depender apenas de intermediários presenciais, as facções passaram a utilizar algoritmos das plataformas digitais para localizar profissionais que viajam frequentemente ao exterior, ampliando o alcance das organizações e tornando o recrutamento mais rápido e difícil de rastrear.
As autoridades seguem monitorando perfis suspeitos e reforçando a cooperação internacional para identificar integrantes da rede criminosa e impedir que novos funcionários da aviação sejam aliciados.
Fonte: Reuters.







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