Para falar sobre coisas sensíveis, um começo de conversa é sempre difícil. É um assunto que deveria ser alarmante para muitos pais, mas, por incrível que pareça, boa parte da sociedade “não liga”; estão mais preocupados com brigas de subcelebridades.
A Organização Mundial da Saúde estima que:
- 1 em cada 13 homens no mundo sofreu abuso sexual na infância.
Já o UNICEF aponta que:
- A prevalência em meninos é menor que em meninas, mas altamente subnotificada.
Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, a maioria das vítimas registradas de abuso sexual são do sexo feminino, principalmente meninas de 0 a 13 anos, mas isso pode não refletir a realidade devido à subnotificação entre o sexo masculino.
Homens têm menor probabilidade de relatar um abuso sexual, seja por vergonha, medo do que a sociedade irá dizer, ou por receio de serem vistos como fracos ou “menos homens” por terem sido vítimas. Existe uma pressão constante.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), padrões rígidos de masculinidade estão associados a maior risco de depressão, suicídio e repressão emocional. E meninos, desde muito novos, já são ensinados que “homem não chora” e que isso é coisa de “mulherzinha”.
Pois bem, é assim que meninos que ainda nem chegaram à adolescência já sofrem a pressão de uma masculinidade rígida e estrutural imposta a eles.
Não poder demonstrar vulnerabilidade desde cedo impacta diretamente na forma como lidam com as adversidades da vida e com os próprios traumas.
Falas como “engole o choro porque homem não chora” ou “você não pode vestir rosa, é cor de mulherzinha” moldam comportamentos. E, junto disso, até “reclamar” ou contar algo — muitas vezes chamado de “fofoca” — também é desencorajado.
O jeito de andar, de falar, de arrumar o cabelo, de gesticular — tudo passa a ser monitorado. Qualquer desvio do que se espera de um “homem” vira motivo de chacota e humilhação, não só entre amigos, mas também dentro da própria família.
E isso é algo que pode ser explorado por criminosos sexuais: eles enxergam uma vítima que, possivelmente, não irá denunciá-los.
Dados mostram que a violência sexual contra crianças e adolescentes do sexo masculino é uma realidade grave e frequente. Casos envolvendo adolescentes também têm chamado atenção, o que reforça a importância de discutir o tema com responsabilidade e base.
A vergonha e a culpa, mesmo diante de uma violência que a vítima não teve responsabilidade alguma, são fatores cruciais que levam ao silêncio. Muitos homens que foram abusados na infância só conseguem relatar isso décadas depois.
Desconstruir mitos e enfrentar o estigma em torno da masculinidade pode ser um caminho para quebrar esse silêncio.
Em entrevista ao canal GNT, o humorista Marcelo Adnet relatou ter sido abusado durante a infância: a primeira vez aos 7 anos, por um caseiro que trabalhava no sítio da família, e a segunda aos 11 anos, por um amigo mais velho da família. Foram 25 anos de silêncio até conseguir falar sobre o assunto, anos lidando com isso sozinho.
“Homens resolvem seus problemas sozinhos” e a frase geralmente termina com “seja homem”. Isso é algo que muitos homens escutaram ainda na infância. Crescer em um ambiente que reprime e pune emoções desde cedo não é algo simples.
O silenciamento do abuso sexual e de outros traumas gera consequências graves para a saúde mental masculina:
- Risco de suicídio elevado: estudos indicam que o abuso sexual na infância está associado a maior risco de ideação e tentativas de suicídio.
- Depressão e isolamento: o trauma não tratado pode evoluir para transtornos depressivos, ansiedade e isolamento social.
- Abuso de substâncias: o silêncio e a repressão emocional podem levar ao uso de álcool e drogas como forma de lidar com a dor.
Onde buscar ajuda especializada:
- Instituto Bia Will: Focado no combate ao abuso sexual contra meninos e apoio a sobreviventes.
- Quebrar o Silêncio (Portugal): Uma organização especializada no apoio a homens e meninos sobreviventes de violência sexual que oferece recursos importantes mesmo para falantes de português no Brasil.
- CVV – Centro de Valorização da Vida (ligue 188): Atendimento gratuito e sigiloso para apoio emocional e prevenção do suicídio (ligue 188).
E para as crianças? Os meninos? Bom, vocês, como pai e/ou mãe conscientes, devem saber que qualquer mudança de comportamento pode e deve ser sinal de alerta: muita irritação ou muita tristeza, e até mesmo comportamentos estranhos, como tendências sociopatas e/ou psicopatas, podem ser sinal de algum tipo de abuso que sofreu ou vem sofrendo.
Então fiquem alertas às suas crianças. Não as deixem próximas de adultos sem supervisão, mesmo que essas pessoas sejam amigas da família há muitos anos ou, por muitas vezes, o seu líder espiritual que parece ser muito “santo”. Mesmo assim, não confiem cegamente. Estejam sempre por perto e ensinem a criança a falar sobre tudo, absolutamente tudo o que acontece, porque às vezes, e por muitas delas, o “diabo” mora nos detalhes.
Então nunca deixem de conversar com as suas crianças, fiquem de olho nos seus meninos e não fiquem calados, mesmo diante das dúvidas.
Se não tem certeza, procure ajuda de um profissional para lhe orientar, mas não fique calado.
A “cultura do estupro” também é um fator disso de abusos infantis e, principalmente, de meninos, pois se sabe hoje em dia que muitas das vezes essa perversão não é simplesmente por puro prazer sexual apenas, mas sim pelo domínio. Tal domínio é traço de masculinidade advinda de um machismo estrutural, herança óbvia do patriarcado.
Bom, mas isso é tema para outro post e por aqui fico para fazer desse tema uma ruptura, pois algo tão importante assim não pode ficar na inércia.
Torne-se assinante e venha ser um ponto de ruptura você também. Vai ser muito bom te ver por aqui comentando. Até mais.







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